O empresário Genir Martelli, proprietário da Martelli Transportes, está finalizando acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF), que também será remetido à Procuradoria Geral da República. Ele deve revelar diversos esquemas fraudulentos durante as gestões dos ex-governadores Blairo Maggi (PP), atual ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e também Silval Barbosa (PMDB), que está preso há um ano e seis meses no Centro de Custódia de Cuiabá.

A empresa de Martelli é uma das acusadas de ter recebido benefícios fiscais milionários em troca do repasse de propinas à organização criminosa.

O proprietário da Martelli Transportes é réu em uma das ações da Operação Ararath. O esquema criminoso do qual ele é acusado de participar trata sobre diversos benefícios irregulares, que posteriormente eram abatidos pelas empresas no pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Além dele, também são réus na ação o empresário Márcio Luiz Barbosa, proprietário da Transportes Panorama, e o ex-secretário de Fazenda, Éder Moraes.

Eles respondem pelos crimes de lavagem de dinheiro e ocultação de bens. De acordo com informações de bastidores, Genir Martelli estaria em conversas avançadas com o MPF.

Caso o acordo seja firmado, ele deve começar a prestar depoimentos sobre os esquemas criminosos ainda neste mês. Em razão do pedido de colaboração, ele pediu para ser remarcada a data de seu reinterrogatório, que seria realizado pela Justiça Federal na última sexta-feira (31).

Na data, somente o empresário Márcio Luiz Barbosa prestou novos esclarecimentos, pois a defesa Éder Moraes também pediu para adiar o procedimento. A Justiça Federal remarcou o reinterrogatório de Martelli para 5 de maio, às 13h30.

Na mesma data também será colhido novo depoimento de Éder Moraes, que também teria pedido adiamento do reinterrogatório após ser informado sobre a delação premiada do empresário.

A expectativa é de que a colaboração premiada de Martelli revele detalhes sobre esquemas criminosos praticados contra os cofres públicos estaduais que já são alvos de investigações e também novas fraudes. A delação dele teria sido motivada pelo fato de o outro empresário réu na ação, Márcio Barbosa, ter firmado acordo de colaboração premiada com o MPF e ter feito declarações sobre o esquema criminoso em outubro de 2016.

As empresas deles teriam participado do mesmo esquema de fraudes em benefícios fiscais. Márcio revelou que os dois chegaram a se reunir para discutir sobre a concessão de créditos tributários para suas empresas, por meio do grupo criminoso que atuava na administração do Estado, em troca de propinas milionárias.

Em um dos casos, conforme delação de Márcio Barbosa, havia sido acordado que as empresas Martelli Transportes e Transportes Panorama receberiam R$ 40 milhões em créditos tributários. No entanto, em 2012, eles receberam o crédito de R$ 43 milhões.

Os R$ 3 milhões restantes teriam de ser repassados à organização criminosa, conforme o colaborador. Márcio Barbosa também revelou que ele e Martelli teriam ficado responsáveis por pagar uma dívida de R$ 20 milhões de Éder Moraes. O valor teria sido obtido pela dupla por meio dos benefícios fiscais concedidos ilegalmente pelo grupo criminoso, que, conforme investigações, seria liderado pelo ex-governador Silval Barbosa. Outros crimes também foram relatados por Márcio Barbosa.

Ele também detalhou sobre um esquema em que R$ 17,6 milhões foram creditados à sua empresa entre os anos de 2010 e 2011. Parte do valor teve de ser entregue à organização criminosa.

Ao todo, incluindo diversas empresas do Estado, a Polícia Federal apura suposta movimentação de R$ 500 milhões entre empresários e políticos mato-grossenses durante a gestão de Silval. Parte do dinheiro, segundo as investigações, teria sido utilizada para custear campanhas eleitorais.

OUTROS RÉUS
Ainda na sexta-feira (31), houve outra audiência sobre operação de instituição financeira clandestina. O processo é relacionado ao esquema que envolveu as empresas Martelli Transportes, Transportes Panorama e a organização criminosa, porém somente o ex-secretário Éder Moraes é réu, pois seria o responsável pela instituição financeira.

Na ação, Gennir Martelli, Márcio Barbosa, Luigi Martelli e o empresário Júnior Mendonça são informantes. Por conta da delação premiada, o advogado de Martelli também solicitou que o depoimento dele fosse remarcado.

O pedido foi acolhido pela Justiça Federal e o procedimento foi adiado para 5 de maio, às 15h. A defesa do ex-secretário solicitou a mesma medida e ele fará reinterrogatório sobre o caso na mesma audiência que Martelli, em maio.

De acordo com denúncia do MPF, o esquema do qual participavam os empresários Márcio Luiz Barbosa e Genir Martelli e o ex-secretário Éder Moraes começava na Casa Civil, onde Moraes articulava a concessão de benefícios fiscais. O crédito fiscal era posteriormente abatido pelas empresas no pagamento do ICMS. Foram concedidos incentivos fiscais na ordem de R$ 192 milhões de reais às empresas Martelli Transportes, Transportes Panorama, Transoeste Logística e Transportes do Oeste.

Como recompensa ao grupo político envolvido no esquema, conforme a denúncia, os empresários repassavam parte do valor irregular para quitar ou abater dívidas de membros do grupo político. AOperação Ararath, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em 2013, apura esquema de movimentações em contas de empresas de fachada criadas com o objetivo de lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros.

Estima-se que R$ 500 milhões tenham sido movimentados pelo conchavo. Ao menos 56 pessoas, entre políticos, empresários e servidores, foram investigadas. Apontado como “operador” do esquema, o ex-secretário Eder Moraes já foi condenado em duas ações penais, com penas somadas de 81 anos de prisão, porém ele recorre das decisões em liberdade.