JBS paralisa compra de bovinos em Mato Grosso

Suspensão vale para as unidades frigoríficas localizadas em Araputanga e Pontes e Lacerda

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Mesmo sem qualquer unidade frigorífica apontada nas denúncias da Operação Carne Fraca, deflagrada na última sexta-feira pela Polícia Federal, Mato Grosso já começa a contabilizar os primeiros impactos negativos e concretos em sua economia.

As unidades do JBS/Friboi, de em funcionamento nos municípios de Araputanga e Pontes e Lacerda, no oeste mato-grossense, suspenderam ontem as compras de bovinos em razão da estabilidade do mercado e assim evitar estoques. A JBS, juntamente com a BRF, é uma das empresas investigadas na Operação.

A JBS Friboi 40 unidades de processamento de bovinos e é em Mato Grosso que está a maior parte delas: 11. A assessoria do JBS/Friboi, por meio de nota, disse que “companhia está operando seu abate conforme o previsto nesta semana, no entanto, está avaliando o mercado e irá adotar as medidas necessárias para adequação do volume de produção à demanda de mercado”.

Ainda segundo fontes do mercado e alguns pecuaristas, o JBS teria anunciado a suspensão para todo o país entre quinta-feira até sábado, como forma de readequação dos estoques e reavaliação das escalas de abates.

A Operação, que desarticulou organização criminosa, no âmbito do Ministério da Agricultura, revelou um esquema envolvendo fiscais do Ministério na liberação de licenças e fiscalização irregular de frigoríficos. Grandes empresas do setor são alvos da ação. A PF cumpriu mandados nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás, além do Distrito Federal.

A informação de que as compras dos animais foram suspensas desde ontem foi feita pelo deputado estadual, Wancley Carvalho (PV). O deputado frisa que há muita preocupação, em especial na região, que é a que mais concentra a atividade pecuária no Estado. O primeiro impacto é o achatamento sobre a arroba do boi e da vaca e depois, caso haja duração na recusa dos animais, o efeito cascata sobre o comércio e a geração de tributos à economia estadual como um todo.

“O agronegócio é responsável por 76% da economia de Mato Grosso. Essa operação dá um duro golpe num dos principais setores que movem a engrenagem econômica do nosso Estado. Somente em minha região {oeste}, duas grandes unidades já suspenderam compra de animais”, alertou o parlamentar. Ainda segundo o deputado, apesar da investigação e a Operação serem necessárias para manter a credibilidade de carne brasileira, os efeitos podem colocar em risco a base de sustentação econômica do Estado, caso outras unidades adotem a mesma postura. O deputado Wancley é coordenador da Frente Oeste, frente parlamentar que defende e promove o desenvolvimento econômico e sustentável dos municípios do oeste mato-grossense.

De acordo com o mercado, o adiamento de abates deverá ser uma rotina nas próximas semanas, no país inteiro, em razão dos volumes que iriam para a exportação e deverão ser redirecionados ao consumo do mercado interno, o que reduz a necessidade de animais na fila de abates. Como alguns países suspenderam de imediato as importações e para evitar que os estoques do produto aumentem ainda mais, os frigoríficos estão fazendo um remanejamento dos abates.

PERÍODO

o diretor-executivo da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Luciano Vacari, destaca que de fato há estoques nas indústrias e que essa parada nos abates pode até ser compreendida pelo setor produtivo. “Toda a cadeia está sofrendo com os desdobramentos da Operação, seja o criador, a indústria, o varejo ou o consumidor. O que não vamos admitir é que venham tirar proveito financeiro do momento. Não vamos admitir que qualquer indústria que venha paralisar suas escalas de abate por um curto período, para sua própria avaliação e reordenamento, volte ao mercado ofertando R$ 5, R$ 10 a menos pela arroba. Essa depreciação não tem justificativa. A operação da Polícia Federal revelou um problema no sistema de inspeção, ou seja, foi operacional, não tem nada a ver com a qualidade da carne que se produz, não tem a ver com a sanidade dos animais”.

Se houver uma pressão baixista sobre a arroba paga pelo produtor, Vacari pontua que qualquer valor pago a mesmo ao produtor tem a obrigação moral de ser repassado ao consumidor em um momento como esse. “Se é um problema que afeta toda uma cadeia, tem de haver esse comprometimento. Repito, não vamos admitir que o setor produtivo, que tem seu trabalho reconhecido no investimento pela qualidade da carne, se punido com um problema operacional como esse apontado pela Polícia Federal”.

Como reforça, “seguimos reforçando nossa qualidade de rebanho, nosso comprometimento com os investimentos e o resultado final de tudo isso que é um alimento de altíssimo nível”.